sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ode a Gordon Comstock


Ameaçador, brutal, o vento açoita
Os choupos vergados, há pouco despidos.
E das chaminés desprende-se a fumaça
Que revoluteia. Soprados, batidos.

Cartazes rasgafos flutuam. E há
O rumor de bondes, passos a bater.
Para a estação os empregados correm
De olhos no oriente, a estremecer.

Todos a pensar: - "Aí vemo o inverno"
Que não seja oh deus, est'ano despedido!"
E sentindo o frio a lhes varar entranhas
- Cortante punhal em gelo esculpido -

Pensam em impostos, aluguéis e taxas
Seguros, salários e no aquecimento.
Sapatos, escola e mensalidade
Das camas de Drage, novo vencimento.

Se nos descuidados dias de verão
Nos bosques incenso a Astarté queimamos,
Agora ao sentir o chicote do vento
Diante do deus certo nos ajoelhamos.

Deus de todos nós. Nosso deus-dinheiro.
Rege mãos e sangue, a cabeça vira.
Que retém o vento se nos dá telhados,
Que tudo nos dá, mas que tudo nos tira.

Que com seu ciúme vive a espionar-nos
Pensamentos, sonhos e secretos meios.
Vigia as palavras e modela a roupa
Determina a rota dos nossos anseios

É quem esfria o ódio, refreia a esperança
Compra nossas vidas, paga em ninharia.
Exige o tributo da fé renegada
Mas aceita insultos, mudas alegrias.

A ferros coloca: força do operário
Musa do poeta, brio do soldado.
Entre o amante e sua jovem noiva
Faz jazer o escudo tão indesejado.

(fonte: Keep the Aspidistra Flying, de George Orwell)

Nenhum comentário:

Postar um comentário