quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Limite


Mas com o acelerador no máximo a margem é muito pouca, e não existe nenhuma possibilidade de erro. Tudo tem que ser feito certo... e é aí que a música estranha começa, quando você abusa tanto da sorte que o medo se transforma em alegria e vibra pelos seus braços. A 160 Km/h, mal dá pra enxergar, as lágrimas são jogadas para trás tão rápido que evaporam antes de chegarem às orelhas. Os únicos sons são o do vento e um zunido surdo que vem dos amortecedores. Você vê a linha branca e tenta virar junto com ela... urrando numa curva para a direita, depois para a esquerda e na longa descida para Pacifica... menos intenso agora, atento para a presença da polícia, mas só até o próximo trecho escuro e mais alguns segundos no limite... O Limite... Não existe nenhuma forma genuína de explicá-la porque as únicas pessoas que realmente sabem onde ele está são aquelas que o ultrapassaram. As outras – as vivas – são as que forçaram seu controle até onde sentiram que podiam aguentar, e depois recuaram, ou reduziram a velocidade, ou fizeram o que quer que tinham que fazer quando chegou o momento de escolher entre o Agora e o Depois.
Mas o limite ainda está Lá. Ou talvez Aqui. A associação que se faz entre motocicletas e LSD não é um acidente de publicidade. Os dois são meios para se chegar a um fim, ao lugar das definições.


Trecho de Hell's Angels de Hunter S. Thompson

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A socieadade e o criminoso

Não se poderia descobrir nenhum outro artifício de maior autoderrota do que aquele que a sociedade desenvolveu no tratamento com criminosos. Ela evidencia a carreira deles de maneiras tão dramáticas e espalhafatosas que tanto eles quanto a comunidade aceitam o julgamento como uma descrição definitiva. Eles se tornam conscientes de si mesmos como criminosos e a comunidade espera que eles façam jus à sua reputação, e não lhes dará crédito caso eles não correspondam às expectativas.

Frank Tannenbaum

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A mulher que passa


Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!


Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.


Meu Deus, eu quero a mulher que passa!


Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me concontrava se te perdias?


Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?


Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!


Que fica e passa, que pacífica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

Vinícius de Moraes

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

No quarto, a loucura.


No quarto quente os
mosquitos aparecem
A cerveja começa a
brutalmente, chocar

No telefone não há
ninguém para ligar
A fumaça mesclou-se ao ar
não há nada mais para tragar

Pensamentos sobre os
amores perdidos começam a pairar
A loucura está prestes a chegar
Só papel e caneta podem me salvar

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Algo do poeta maldito

Em meu próprio país estou em uma terra distante
Sou forte, mas não tenho autoridade nem poder
Eu venço e, ainda assim, sigo sendo um perdedor
Ao fim do dia digo boa noite
Quando me deito sinto um medo enorme
...De Cair.

François Villon