sexta-feira, 9 de abril de 2010

Glauber, Caetano e eu

Eu sou Glauber Rocha. Eu sou Caetano Veloso. Eu sou Glauber e Caetano juntos. Eu sou o que restou de lucidez no Brasil. Eu sou Glauber gritando que as crianças brasileiras não devem ver super-homem. Nem Lua Nova. Nem vampiros. Nem bruxos. Nem Batman. Nem Shrek. Só Erasmo Carlos, o Shrek brasileiro. Muito menos cabanas e crepúsculos. É tudo lixo da indústria cultural mais vagabunda e sanguessuga. Eu sou Glauber dizendo que as telenovelas são porcarias. Eu sou Caetano vociferando que "vocês não estão entendendo nada". Eu sou Caetano afirmando que quem ainda tem coragem de fazer esta estrutura explodir "sou eu". Sou eu, como Caetano e Gil, quem ainda tem disposição de enfrentar toda a "imbecilidade que reina no Brasil". Eu sou um canalha.

Eu sou o cronista sem gravata, babando na tela do computador, repetindo com Glauber que a nossa cultura não é a ópera, mas a umbanda, nem é feita de bruxos e vampiros, mas de boitatá e saci. Eu sou um nacionalista tacanho. Sou Policarpo Quaresma. Eu digo rato em lugar de mouse, digo Me Te Vê e não Me Ti Vi, digo negócio, não business. Digo que quem lê Harry Potter aos 10 anos de idade verá Lua Nova aos 15, lerá Paulo Coelho aos 20 e Dan Brown aos 30. Aos 60, votará em Sarney e suspirará pelos bons velhos tempos. Eu sou terrível. Sou megalomaníaco, contraditório, doido e até meio veado. Eu digo que a literatura brasileira atual é vergonhosa. Ou é livro de celebridade ou é livrinho umbilical que, mesmo ganhando prêmio, nunca será lido por mais de mil pessoas, caso consiga passar das cinco que prestigiam os amigos.

Eu antecipo. Novela de televisão só tem duas tramas: numa, pai e filho disputam a mesma mulher. Na outra, mãe e filha disputam o mesmo homem. Nas mais inovadoras, avô, filho e neto disputam a mesma mulher. Em "Viver a Vida", a história se repete. Pai (José Mayer) e filho (Tiago Lacerda) disputarão a mesma gata, a gélida e chorosa Helena. Esse Manoel Carlos, adorado como o genial Maneco, é um medíocre de marca maior, mas uma anta esperta que arranca muita grana da Globo e cativa os telespectadores, nós, os taipas, que eu adoro me emporcalhar vendo baixaria e intriga requentada. Mas eu não quero, como pensam alguns, a preservação da alta cultura e da música de consultório de dentista nas rádios FM. Eu sou iconoclasta. Não choro por Paul Mauriac e Orquestra. Não tenho saudades dos bailes da reitoria.

Filme de faroeste sempre tem duelo. Novela tem casamento, barraco, briga de mulher gostosa e pai e filho, ou mãe e filha, querendo o mesmo amor. Sempre funciona. O nível baixa. A audiência sobe. Os manecos faturam. A gente chora afundado no sofá. Queremos mais do mesmo. Adoramos a mesma piada, amamos os nossos ídolos, vibramos com os nossos deuses. Eu digo: abaixo os ídolos. Ninguém precisa de modelos. Cada um é o próprio modelo. Eu sou o Louro José gaúcho do país do "cuecagate". E com licença, que está na hora de tomar a minha dose diária de lítio.

Juremir Machado

Fonte: Correio do povo.

Um comentário: